19.7.05

EFEITOS SECUNDÁRIOS DA SILLY SEASON



A ENERGIA EÓLICA - O Governo da República anunciou com a pompa e a circunstância que a mediatização impõem, uma "aposta" na energia eólica, como forma de combater a dependência energética do país face ao petróleo e de obter receitas privadas para o choque tecnológico. Se não se discute a necessidade de Portugal reduzir a factura energética, nem a opção pelas energias renováveis (veja-se aqui o exemplo dos Açores, com a opção pela geotermia), já é discutível, no plano das opções públicas que a opção pela energia eólica deva ser a única ou a grande fonte de produção de energias alternativas. Isto é, o Governo da República apresentou a proposta na energia eólica como se tratasse da grande solução para o problema da dependência do petróleo. Desacompanhada de outras opções no campo da produção energética (recurso à energia solar, rede de mini-hídricas, para produção local, valorização energética no tratamento dos resíduos sólidos urbanos, biomassa florestal, para apenas dar um ou dois exemplos) fica-se com a sensação de que o Governo pretendeu, de modo apressado e sobressaltado apresentar publicamente um meio para financiar algumas das promessas do Primeiro-Ministro.
Por outro lado, a opção pela energia eólica – tanto quanto é público – também não é secundada por nenhuma medida de contenção ou de poupança energética, quer a nível público, quer a nível privado, a começar pelas opções quanto à política de transportes públicos.

O ARTIGO DO MINISTRO DAS FINANÇAS – O Ministro das Finanças, Campos e Cunha, em artigo de opinião no "Público", volta a revelar uma estranha forma de agir politicamente. O Ministro, de modo casuístico, revela aquilo que o Primeiro-Ministro se recusou a assumir no recente debate do Estado da Nação, na Assembleia da República: que novas medidas de contenção esperam os Portugueses, em 2006, atingindo as economias das famílias. O Ministro Campos e Cunha disse mais do que deveria dizer, considerando a estratégia que o Governo adoptou para aplicar e comunicar as draconianas medidas económicas, cujos efeitos se começam a sentir na economia e já levaram o Banco de Portugal a rever em baixa o crescimento do PIB para 0,5%. Porém, o artigo do Ministro das Finanças suscita ainda algumas perplexidades: quando o Prof. Campos e Cunha faz uma distinção quanto à qualidade do investimento público e aos seus efeitos na economia do país, poderemos ou não interpretar as suas palavras, como revelando que ele terá daqueles Ministros que, em Conselho de Ministros, levantaram dúvidas quanto aos projectos do TGV e do aeroporto da OTA, como foi revelado por José Sócrates, na última grande entrevista à SIC, há quinze dias? Se não é, parece!

A DECLARAÇÃO INUSITADA DE SÉRGIO ÁVILA – Definitivamente, o Dr. Ávila não tem o perfil adequado para desempenhar o cargo de Vice-Presidente do Governo Regional dos Açores. Em declarações públicas, o Vice-Presidente, em mais uma das suas "boutades", enuncia a teoria financeira do “quanto pior melhor”, dizendo que as dificuldades financeiras do país, são boas para a Região, pois permitem uma maior arrecadação de receitas, graças ao aumento do IVA.
Revelando insensibilidade política, o Dr. Ávila esquece que os açorianos também sofrem com a crise nacional e que as dificuldades do país também chegam aos Açores.
Se esta declaração do Dr. Ávila fosse a única deste género proferida nos últimos meses, estaríamos perante um deslize. Mas, não foi. O Vice-Presidente do Governo tem sido pródigo neste tipo de declarações, demonstrando – se demonstração fosse necessária – que mandar no PS da Terceira, derrotando Francisco Coelho e ganhar a Câmara de Angra do Heroísmo, não são predicados suficientes para um bom governante.
O tempo tem-se encarregado de revelar que o Dr. Ávila é um erro de "casting"
!

12.7.05

TERRORISMO GLOBAL


Os ataques terroristas de 7 de Julho a Londres, embora possíveis depois do 11 de Setembro, não eram esperados, porque, simplesmente um ataque terrorista nunca é esperado.

A dimensão do ataque à capital londrina, a sua precisão, com a deflagração sequencial de várias bombas, em hora de ponta matinal, a simbologia da data – o início da cimeira G8, na Escócia, são bem reveladoras da estratégia adoptada: evidenciar que, apesar dos esforços do ocidente, a Al-Qaeda está viva e pode matar, com precisão e a sangue-frio.

Embora a natureza do terrorismo se mantenha, prosseguindo o mesmo tipo de objectivos (como escreve David Robertson, no "Dictionary of Modern Politics", Oxford, "terrorism is the use of violence politically as a means of pressurizing a government and/or society into accepting a radical political or social change") a sua estratégia e os métodos mudaram muito nas últimas duas décadas, mesmo tomando como ponto de partida o ataque à embaixada americana, em Teerão, em Novembro de 1979.

Depois dos alvos estritamente políticos ou de natureza militar, o terrorismo escolhe agora alvos que, aos olhos do cidadão comum, são aleatórios. Nos ataques terrorista de nova geração, os alvos são esses mesmos cidadãos comuns, inocentes, vítimas apenas porque estão no local errado, no momento errado.

A espiral do terror alimenta-se deste medo global: tanto faz ser New York, Madrid, Londres, ou outra cidade. O medo está instalado. Os cidadãos sabem que qualquer um pode ser a próxima vítima, em qualquer lugar. O receio global que o 11 de Setembro alimentou à escala planetária vive da mediatização dos actos terroristas. Em New York, o terrorismo foi hiper-mediatizado. A voragem dos media não encontrou limites. A AL-Qaeda viu o seu amplificado vezes sem conta. Já em Madrid, os acontecimentos, apesar dum ampla cobertura mediática, não tiveram a dimensão anterior. Agora em Londres, o Estado parece ter encontrado uma forma mais contida de lidar com os media e de conter – por consequência – os efeitos comunicacionais do acto terrorista: apenas informação confirmada, zona de interdição para a imprensa, locais imediatamente circunscritos, afastando os olhares indiscretos das câmaras de televisão, enormes panos brancos a delimitarem as áreas onde os feridos receberam o primeiro tratamento clínico.

Sem ser asséptica, a informação foi mais bem gerida, como forma de evitar a amplificação do medo, afinal outro dos novos objectivos do terrorismo.

Claro está que este novo ataque veio colocar a luta contra o terrorismo na agenda política da Europa e relançar o debate em torno de medidas de carácter securitário. No Reino Unido, a primeira consequência será – por certo – uma mais fácil aprovação do bilhete de identidade, desde sempre visto como uma abusiva violação da privacidade dos cidadãos por parte do Estado. O Ministro do Interior inglês já propôs publicamente que os países da UE passem a manter em arquivo, durante seis meses, todas as comunicações telefónicas e de e-mail, o que pressupõe uma vigilância global das comunicações.

Os actos terroristas têm o condão de colocar em confronto a necessidade de acautelar melhor a segurança colectiva dos cidadãos com a liberdade que todos gozamos nos Estados de direito democrático.

O combate ao terrorismo não tem uma resposta fácil, porque ele representa um ataque à própria democracia, aos seus fundamentos, ao debate, à pluralidade e à liberdade de escolha que o sistema democrático traduz. O terrorismo é a negação de tudo isto: é a imposição, pela violência, das opiniões de uns, anulando a liberdade da escolha.

Por isso mesmo, a resposta contra o terrorismo apenas pode ser dada num quadro democrático, sem cair na tentação – cada vez mais fácil – de que os "fins justificam os meios".

6.7.05

O MUNDO NESTA SEMANA


1. Começa hoje, na Escócia, a cimeira do G8 (os setes países mais ricos do mundo, a que se junta a Rússia). Tony Blair definiu já a agenda para esta reunião dos "grandes": a ajuda a África e as alterações climáticas. Sem constituir uma agenda própria da União Europeia, a proposta do Primeiro-Ministro britânico deve ser encarada num quadro em que Blair procura redefinir a sua própria posição e a posição inglesa face à Europa e no clube dos países mais ricos do mundo.

Depois da posição inglesa na guerra do Iraque, que levou Blair a enfrentar a oposição do seu próprio partido, o fez correr riscos no último acto eleitoral e evidenciou o estertor quase-final do eixo Paris-Bona, o chefe de Governo inglês já percebeu que precisa de emancipar-se dos EUA no contexto da política internacional e de aproximar da Europa, no plano da União.

Sinal desta linha bifronte é o discurso que proferiu perante o Parlamento Europeu, no início da presidência inglesa da União e as propostas que lançou ao G8.

2. O resultado da cimeira do G8 é, como sempre incerto, muito embora o "Live8" tenha tocado a rebate nas consciências planetárias. Blair irá empenhar-se para que as suas propostas de perdão da dívida ou elaboração dum plano Marshall para os países do terceiro mundo possa obter apoio dos outros sete. Provavelmente, os EUA distanciar-se-ão dum acordo e os parceiros europeus do Reino Unido, a braços com uma profunda crise económica, preferirão adiar uma solução.

Dirão os cínicos que o que não for conseguido agora, bem pode esperar mais algum tempo para ser alcançado. Porém, não deixamos de pensar que a devastação da fome, da miséria de quem vive com menos de um dólar por dia, das condições infra-humanas, da mortalidade infantil que atinge uma criança em cada três segundos, tem de parar. E esta é uma altura tão boa como outra qualquer.

A União Europeia não tem uma estratégia clara para o G8, muito embora já se tenha percebido que esta cimeira pode ser uma oportunidade para que a velha Europa se possa afirmar no plano internacional. Cauterizada pelo fracasso do tratado constitucional, mergulhada numa crise institucional, a Europa tem de encontrar novas ideias e atitudes mobilizadoras, que contagiem os seus dirigentes e os cidadãos, de modo a encontrar o suplemento de alma que lhe falta por estes dias.

3. Ironicamente, uma parte desta Europa – o velho eixo Paris-Bona – decidiu preparar a cimeira da Escócia, em Kalininegrado, sob os auspícios de Vladimir Putin e do seu desejo duma "nova Europa". A ex-Konisberg, no mar Báltico, encravada entre a Lituânia e a Polónia, foi a capital dos Reis da Prússia, tendo sido conquistada pelo Exército Vermelho durante a II Guerra Mundial e rebaptizada em 1946 como Kalininegrado, em homenagem ao dirigente soviético Mikhail Kalinine. É a cidade de Kant, que na pedra tumular tem a seguinte inscrição: "Duas coisas preenchem o espírito de uma admiração e de uma veneração crescentes e renovadas, à medida que a reflexão nelas incide: o céu estrelado sobre mim e a lei moral em mim."
A pergunta agora é: para onde vais Europa?